
O cenário é uma ilha isolada do mundo com um menino perdido. Estilo Lagoa Azul.
Ás suas mãos, uma garrafa, um pedaço de papel e um lápis (sei lá onde arranjou isso). Ele escreve um punhado de coisa, coloca em uma garrafa e joga ao mar esperando uma resposta. Ele sabe que é difícil, quase impossível, mas quando a resposta vem, fica muito feliz.
Se não fosse a situação, ele jamais iria colocar um papel dentro de uma garrafa com uma mensagem escrita. Este blog, o referendo e o menino perdido na ilha são circunstâncias que criam fatos antes nunca vividos. Sem eles, não aconteceriam garrafas com pedaços de papel nem debate algum sobre Sim e Não.
Democracia se constrói assim.
E lá vão mais garrafas. Despretensiosas, como sempre.
Livre Arbítrio x Controle Arbitrado
Temas polêmicos como a legalização do aborto, das drogas e da eutanásia sempre criam o debate a respeito da linha que separa o livre arbítrio do cidadão e o controle que uma lei pode ter sobre o mesmo. A esquerda e a direita sempre entram em contradição no momento em que discutem estes assuntos e dificilmente explicitam sua opinião claramente.
No Brasil, não conhecemos a posição do PT, PSDB, PFL e PMDB sobre estes assuntos. Mas conhecendo um pouco da história destes partidos, creio que dificilmente sejam a favor do Sim para estas legalizações. A Igreja Católica foi um dos pilares da criação do Partido dos Trabalhadores e jamais estaria na agenda de Lula este assunto. Seria sarna pra se coçar demais; já basta perder boa parte da militância com a política econômica atual. Basta ver que nunca estes assuntos são objetos de curiosidade de jornalistas e eleitores nas épocas de campanha. Nos EUA, o partido democrata não adota posições claras nesse sentido. John Kerry, nas últimas eleições, também permaneceu em cima do muro diante dos temas mostrando ambigüidade.
Muitos tendem a ser contraditórios. Por exemplo, aqueles que dizem que o Estado se mete demais e defendem o não-desarmamento mas pregam o não-aborto são contraditórios. É a direita religiosa! Aliás, quem defende o Não tem a obrigação de ser a favor da pena de morte, afinal a legítima defesa seria para matar o bandido a partir de uma reação. São assuntos complicados que exigem no mínimo coerência daquele que vai votar domingo.
Não sou a favor da legalização das drogas. É o tipo de sociedade que não quero para os meus filhos. O argumento de que vai acabar com o tráfico é estúpido, a não ser que a droga vire uma especiaria baratíssima no mercado legal e que o planeta inteiro resolva legalizar tudo. Caso contrário, viraremos o palco dos traficantes internacionais. Mas sou a favor da legalização da maconha, droga muito menos perversa do que uísque e absinto que bebo todo fim de semana. Este assunto é inútil; sou a favor sim, mas um referendo destes seria um desserviço à nação. O único ganho seria um recolhimento de impostos a mais, isso se o tráfico não continuar. E reitero: CD também é legalizado e temos pirataria.
Sobre a eutanásia temos algumas variantes. O caso Terry Schiavo é diferente do retratado no filme de Clint Eastwood e em Mar Adentro de Amenábar. No caso Terry, tenho uma posição nada humanista. Ou talvez seja, já que não se trata mais de um ser humano. Na minha concepção, ela era um vegetal. Perdeu toda a sua atividade cerebral, justamente aquilo que nos difere de coqueiros. Reinaldo Azevedo escreveu um texto na época defendendo o fato de Terry ser um vegetal e a vontade de sua família de, uso aqui suas palavras, "regar aquela plantinha até o fim de sua vida". Esta é uma decisão passional, compreensível até por parte dos pais, mas que não considera o sofrimento da paciente. A eutanásia de Terry é sim uma decisão técnica, como os conservadores gostam de defender a atuação do Banco Central por exemplo. Em Menina de Ouro e Mar Adentro a situação é mais complicada. Ocorre um suicídio na realidade e me faz lembrar um que ocorreu no meu prédio em 2003. A menina se matou por problemas psicológicos e se jogou do décimo andar. Até que ponto um problema psicológico é equivalente a um problema físico, como nos personagens do filme? O Estado não tem nada que legislar sobre isso, simplesmente porque não tem como evitar a vontade de um indivíduo de se matar.
Sobre o aborto temos uma questão filosófica em jogo. Seria a tal coisinha dentro de nós uma vida que estaria sendo assassinada? Para mim não. Sem dúvida, mais cruel do que "matar" essa "vida" seria coloca-la nesse mundo sem condições financeiras e carinho. E isso não estou nem falando dos casos de estupro. Steven Levitt escreve em seu fenômeno de vendas, o livro Freakanomics, que a legalização do aborto teria feito a violência diminuir em Nova Yorque. Nada de Rudolph Giulianni, ex-prefeito da cidade, e sua política de tolerância zero. É uma tese coerente. Filhos indesejados teriam a cabeça mais fraca e maior probabilidade de buscar saídas para a sua vida em meios ilegais.
O fato é que os partidos brasileiros, se mal têm programa de governo para economia e área social, não possuem, muito menos, nenhuma unidade sobre estas questões que entram mais no campo da moral e ética. As pessoas também não conseguem ter posições sobre tudo e fazer com que todas sejam coerentes. Em dias, meses, anos, as opiniões mudam e, graças a Deus, mudam. No meu caso, cotas e legalização da maconha foram temas que já optei pelo Não.
O debate do livre arbítrio contra o controle arbitrado passa pelo simples conceito de que a liberdade de uma pessoa vai até onde não se invada a de outra. É o meu modelo para ter opinião sobre estes assuntos. Um sujeito ter uma arma invade a minha liberdade já que um acidente pode acontecer e me prejudicar. Um sujeito usar drogas me afeta, pois financia o tráfico e contribui para a violência. No entanto, um aborto não afeta ninguém (a não ser a "coisinha") e uma eutanásia só a própria pessoa mesmo. Este debate é recheado de contradições, provavelmente as minhas serão encontradas. Não importa.
Todos já mudaram de opinião alguma vez na vida. Todos podem mudar de opinião. A minha está em aberto para tudo ainda.
Se FHC falou realmete "Esqueçam o que escrevi", qual o problema um moleque de 20 anos abrir suas garrafas e corrigir seus escritos equivocados antes de lança-los ao mar?

6 Comments:
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Rod
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Thiaguin...bom texto! Nem tudo está perdido!!!
hehehehe
aquele abraço!
Isso aí!! Se não estivermos dispostos a mudar de opinião sobre determinados assuntos caímos no dogmatismo, na burrice, na cegueira. Muito corajoso assumir essa posição!
bjos
Cuidado com as analogias mlK! Aquela do banco central foi desumana hehe!
E po afinal você é contra ou a favor da legalização da maconha?
"Mas sou a favor da legalização da maconha, droga muito menos perversa do que uísque e absinto que bebo todo fim de semana."
" No meu caso, cotas e legalização da maconha foram temas que já optei pelo Não."
??
desligadoooon!
No mais, tirando a introdução que ja tinha falado.Maneiro, mas cada tema polêmico, merece um texto especial. E é claro, como vc falou, por ora!Espero que ninguem venha aqui escrever um tratado!Abraciiiin
Le o meu porra!
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Não me desliguei não, você que não entendeu o que quis dizer, mas sua dúvida é pertinente:
No parágrafo estou falando sobre posições que mudam com o tempo. Então citei exemplos meus como a época em que OPTEI (passado) pelo não na legalização da maconha e das cotas.
Abraço
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