Para meu amigo Bernardo que respeito e admiro
O Exemplo Argentino
A esquerda mundial vibra com a renegociação da dívida externa feita pelo governo Kirchner. Aplaudem o crescimento do PIB na casa dos 7% em três anos seguidos e ironizam ao mostrar o Risco Argentina próximo do nosso, beirando os 400 pontos. Ainda citam os altos reajustes no salário mínimo e a política protecionista para a indústria local. O modelo heterodoxo encanta os chamados desenvolvimentistas, críticos do modelo conservador de Palloci. No entanto, é preciso que se coloque um freio nesta euforia mostrando o que está atrás dos números que convém ao discurso populista.
Nos anos 90, nossos vizinhos adotaram a paridade de sua moeda com o dólar e viram uma desvalorização no mercado de câmbio que fez a sua riqueza nacional ser reduzida em 20%. Seu parque industrial tornou-se sucateado e aumentou muito o número de pessoas abaixo da linha de pobreza, o desemprego e a inflação. A instabilidade econômica aliou-se á política com a derrubada de cinco presidentes em curto espaço de tempo. Assim, a Argentina chegou a uma dívida pública de 120% do PIB, na sua maioria com credores estrangeiros.
Nosso cenário pós-desvalorização do Real em 98 foi bem diferente apesar de também termos passado por um período de crescimento pífio. Os sábios da PUC que comandaram o Ministério da Fazenda em oito anos de tucanato fizeram a dívida pública dobrar para 60% do PIB e destruíram nossas transações correntes com uma política semelhante ao governo Menem. No entanto, o efeito aqui foi menor do que com os argentinos. Fizemos uma desvalorização da moeda mais suave, não houve recessão, muito menos disparada na inflação. Passamos a adotar uma política de superávits primários que garantiram a rolagem da dívida interna e a balança comercial deu uma virada a partir do ano 2000 transformando-nos em um país forte no exterior (o governo Lula tem mérito na sua política exportadora, mas a virada aconteceu antes).
Resumindo, os argentinos tinham que fazer essa renegociação. Não há inovação em Kirchner ao faze-la, era necessário tendo em vista que eles não tinham mais a mínima condição de rolar sua dívida. Malan também conduziu este processo dez anos antes aqui com a renegociação da dívida externa brasileira quando surgiu o famoso papel C-Bond. Para quem não sabe, o presidente argentino, mesmo renegociando seu passivo, faz um superávit primário de 5%- o do Brasil é de 4,25%- enxugando os investimentos públicos. Lá também está indo todo mês dinheiro do orçamento para pagar juros. Há também uma certa esperteza que está por trás disso. Primeiro que a Argentina renegociou sua dívida apenas com credores privados. Órgãos multilaterais de crédito como o Banco Mundial ou FMI continuarão cobrando o mesmo e deram apoio ao processo. Segundo que renegociar uma dívida externa parece muito mais fácil politicamente do que uma interna. Os fundos de pensão e investimento que a classe média usa depositam grande parte do seu capital nesses títulos da dívida pública. Uma renegociação desse porte dentro do país afetaria a renda de muitas pessoas. Seria engraçado ver um dia os pais daqueles estudantes radicais (aqueles bem irritantes e repetitivos) que pregam o calote tendo sua aposentadoria privada diminuída por conta dessa atitude.
Os números argentinos desde que Kirchner assumiu são bons mas a margem de comparação é muito baixa. Três anos de crescimento econômico robusto só fizeram o PIB argentino chegar aos níveis de 98, e mesmo assim, esta política inovadora nada tem a ver com a retomada já que ela veio antes da renegociação da dívida. O risco argentino está próximo do brasileiro graças à abundância de capitais livres no mundo todo que estão buscando os papéis dos países emergentes.
Nestor Kirchner está preocupado atualmente com as eleições legislativas que se aproximam. Triplicou o salário mínimo na sua gestão e acenou com diversas medidas protecionistas para as indústrias (pergunte a um empresário brasileiro como está difícil vender uma geladeira lá). Sobre o ajuste no salário mínimo, existem diversos estudos que afirmam que uma canetada presidencial aumentando o rendimento nem sempre chega ao bolso do mais pobre. O mercado informal hoje é tão grande que virou lenda dizer que uma boa política social está em aumentar o salário mínimo. E o protecionismo argentino tem dificultado seriamente uma integração maior do Mercosul, vide as relações Brasil-Argentina, um bocado hostil em certos aspectos (como esquecer Kirchner dormindo e depois saindo mais cedo em um fórum aqui em Brasília). Mesmo com estas medidas, a taxa de desemprego da Argentina está por volta de 10%, um pouco maior que a brasileira que já está na casa de um dígito.
Com juros baixos, Roberto Lavagna, ministro da Economia, vem promovendo uma política frouxa e o resultado está na inflação prevista para este ano: 11%. O dobro da brasileira. E não tem coisa que afete mais a renda do pobre que preços altos. Aprecio certas vezes Bancos Centrais conservadores, mas que, ao menos, mantém a inflação baixa. Kirchner combate a inflação com o tabelamento de preços e ameaçando empresas multinacionais como a Shell de aumentos abusivos. Nobre, porém não vem tendo efeito. No entanto, tem-se que admitir, os argentinos adotaram uma política interessante de controle de capitais (o dinheiro que entrar no mercado financeiro de lá tem que ficar no investido no país por, no mínimo, um ano) que a equipe econômica brasileira deveria adotar.
Na verdade quero dizer que a Casa Rosada teve êxito na sua renegociação, mas ela nada tem a ver com os resultados atuais que já começam a ser ameaçados pelo populismo de Kirchner. A Argentina tem problemas que não serão resolvidos com a posição adotada atualmente. Os últimos dados de investimento, que analisam se o crescimento será ou não sustentável, estão abaixo das expectativas e a inflação preocupa.
Os números parecem bons mas já dizia minha avó(dizia mesmo, este não é um recurso para minha retórica): Nos bons momentos é que temos que nos preocupar mais. Há uma ilusão da esquerda de que o exemplo argentino deve ser seguido, quando, na verdade, a nossa situação é de um estágio infinitamente superior (se for despejar os dados brasileiros, não tem nem graça). Eles fazem agora o que fizemos a dez anos com Malan e sua turma monetarista.
Nada melhor do que uma pitada de neoliberalismo (estou ainda buscando saber o que é isso, mas adoro usar) no atual modelo hermano. Até porque o bem deles faz o nosso bem.
O Exemplo Argentino
A esquerda mundial vibra com a renegociação da dívida externa feita pelo governo Kirchner. Aplaudem o crescimento do PIB na casa dos 7% em três anos seguidos e ironizam ao mostrar o Risco Argentina próximo do nosso, beirando os 400 pontos. Ainda citam os altos reajustes no salário mínimo e a política protecionista para a indústria local. O modelo heterodoxo encanta os chamados desenvolvimentistas, críticos do modelo conservador de Palloci. No entanto, é preciso que se coloque um freio nesta euforia mostrando o que está atrás dos números que convém ao discurso populista.
Nos anos 90, nossos vizinhos adotaram a paridade de sua moeda com o dólar e viram uma desvalorização no mercado de câmbio que fez a sua riqueza nacional ser reduzida em 20%. Seu parque industrial tornou-se sucateado e aumentou muito o número de pessoas abaixo da linha de pobreza, o desemprego e a inflação. A instabilidade econômica aliou-se á política com a derrubada de cinco presidentes em curto espaço de tempo. Assim, a Argentina chegou a uma dívida pública de 120% do PIB, na sua maioria com credores estrangeiros.
Nosso cenário pós-desvalorização do Real em 98 foi bem diferente apesar de também termos passado por um período de crescimento pífio. Os sábios da PUC que comandaram o Ministério da Fazenda em oito anos de tucanato fizeram a dívida pública dobrar para 60% do PIB e destruíram nossas transações correntes com uma política semelhante ao governo Menem. No entanto, o efeito aqui foi menor do que com os argentinos. Fizemos uma desvalorização da moeda mais suave, não houve recessão, muito menos disparada na inflação. Passamos a adotar uma política de superávits primários que garantiram a rolagem da dívida interna e a balança comercial deu uma virada a partir do ano 2000 transformando-nos em um país forte no exterior (o governo Lula tem mérito na sua política exportadora, mas a virada aconteceu antes).
Resumindo, os argentinos tinham que fazer essa renegociação. Não há inovação em Kirchner ao faze-la, era necessário tendo em vista que eles não tinham mais a mínima condição de rolar sua dívida. Malan também conduziu este processo dez anos antes aqui com a renegociação da dívida externa brasileira quando surgiu o famoso papel C-Bond. Para quem não sabe, o presidente argentino, mesmo renegociando seu passivo, faz um superávit primário de 5%- o do Brasil é de 4,25%- enxugando os investimentos públicos. Lá também está indo todo mês dinheiro do orçamento para pagar juros. Há também uma certa esperteza que está por trás disso. Primeiro que a Argentina renegociou sua dívida apenas com credores privados. Órgãos multilaterais de crédito como o Banco Mundial ou FMI continuarão cobrando o mesmo e deram apoio ao processo. Segundo que renegociar uma dívida externa parece muito mais fácil politicamente do que uma interna. Os fundos de pensão e investimento que a classe média usa depositam grande parte do seu capital nesses títulos da dívida pública. Uma renegociação desse porte dentro do país afetaria a renda de muitas pessoas. Seria engraçado ver um dia os pais daqueles estudantes radicais (aqueles bem irritantes e repetitivos) que pregam o calote tendo sua aposentadoria privada diminuída por conta dessa atitude.
Os números argentinos desde que Kirchner assumiu são bons mas a margem de comparação é muito baixa. Três anos de crescimento econômico robusto só fizeram o PIB argentino chegar aos níveis de 98, e mesmo assim, esta política inovadora nada tem a ver com a retomada já que ela veio antes da renegociação da dívida. O risco argentino está próximo do brasileiro graças à abundância de capitais livres no mundo todo que estão buscando os papéis dos países emergentes.
Nestor Kirchner está preocupado atualmente com as eleições legislativas que se aproximam. Triplicou o salário mínimo na sua gestão e acenou com diversas medidas protecionistas para as indústrias (pergunte a um empresário brasileiro como está difícil vender uma geladeira lá). Sobre o ajuste no salário mínimo, existem diversos estudos que afirmam que uma canetada presidencial aumentando o rendimento nem sempre chega ao bolso do mais pobre. O mercado informal hoje é tão grande que virou lenda dizer que uma boa política social está em aumentar o salário mínimo. E o protecionismo argentino tem dificultado seriamente uma integração maior do Mercosul, vide as relações Brasil-Argentina, um bocado hostil em certos aspectos (como esquecer Kirchner dormindo e depois saindo mais cedo em um fórum aqui em Brasília). Mesmo com estas medidas, a taxa de desemprego da Argentina está por volta de 10%, um pouco maior que a brasileira que já está na casa de um dígito.
Com juros baixos, Roberto Lavagna, ministro da Economia, vem promovendo uma política frouxa e o resultado está na inflação prevista para este ano: 11%. O dobro da brasileira. E não tem coisa que afete mais a renda do pobre que preços altos. Aprecio certas vezes Bancos Centrais conservadores, mas que, ao menos, mantém a inflação baixa. Kirchner combate a inflação com o tabelamento de preços e ameaçando empresas multinacionais como a Shell de aumentos abusivos. Nobre, porém não vem tendo efeito. No entanto, tem-se que admitir, os argentinos adotaram uma política interessante de controle de capitais (o dinheiro que entrar no mercado financeiro de lá tem que ficar no investido no país por, no mínimo, um ano) que a equipe econômica brasileira deveria adotar.
Na verdade quero dizer que a Casa Rosada teve êxito na sua renegociação, mas ela nada tem a ver com os resultados atuais que já começam a ser ameaçados pelo populismo de Kirchner. A Argentina tem problemas que não serão resolvidos com a posição adotada atualmente. Os últimos dados de investimento, que analisam se o crescimento será ou não sustentável, estão abaixo das expectativas e a inflação preocupa.
Os números parecem bons mas já dizia minha avó(dizia mesmo, este não é um recurso para minha retórica): Nos bons momentos é que temos que nos preocupar mais. Há uma ilusão da esquerda de que o exemplo argentino deve ser seguido, quando, na verdade, a nossa situação é de um estágio infinitamente superior (se for despejar os dados brasileiros, não tem nem graça). Eles fazem agora o que fizemos a dez anos com Malan e sua turma monetarista.
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2 Comments:
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Porra...nem vesti a carapuça não...hahahahaha
Tenho que te contar do congresso que foi esse fim de semana, em SP. Se você pensava que eu era o radical, sinto em lhe dizer, mas pensou errado!!!
té mais...essa coluna tá parecendo Míriam Leitão.
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