Blog de Thiago Prado

Apenas uma visão despretensiosa

Segunda-feira, Novembro 14


Ouvi na Rádio Globo que um presidente de um clube na Suécia devolveu o dinheiro do ingresso para os torcedores depois de uma derrota patética do time da casa por 8 a 1. Um costume interessante que se adotado aqui tornaria meu hobby de graça de vez em quando.
Tenho muitos hobbies. Ver televisão, jogar bola, sair... até de ficar na cama jogando uma bola de pelúcia pro alto. Encontrei mais um, muito mais legal que ler a mesmice diária nos jornais (estes abandonei).


Fanfarrices no Poder II

Fiz um texto faz um tempo em que defendia os políticos de fazer o que bem entendessem na sua vida pessoal. Mas descobri um jeito de fiscaliza-los se andam aprontando fanfarrices enquanto estão no batente. Ultimamente para passar o tempo ficava no MSN conversando o nada que não ia levar a nada. Na TV, apenas um pouco de futebol e clipes da MTV. Ás vezes um pouco de João Kleber ás segundas. Confesso que encontrei na Internet algo bem divertido para passar o tempo.

Se o internauta quiser pode entrar no site de todas as câmaras de vereadores e deputados do Brasil inteiro e pesquisar o que o indivíduo que ganhou o seu voto anda fazendo. Tem de tudo, desde a freqüência do parlamentar até seus discursos e projetos de lei propostos. Existe hoje uma democracia efetiva no país, o problema é o brasileiro classe média com acesso a esses meios ter paciência para pesquisar. Garanto, é hilário.

Comecei pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro localizada na cidade mais limpa que Paris, de acordo com nosso prefeito. Lá reina Jorge Picciani (PMDB), um fenômeno de investidor, de dar inveja a Bill Gates. O presidente da casa no período de 1997 a 2001 teve aumento patrimonial de 278% na sua riqueza. Fora a acusação de trabalho escravo nas suas propriedades rurais. Não é nada, não é nada... Não é nada (Licença Ancelmo Góis). Foi vendo uma entrevista sua que descobri o que Alice Tamborindeguy (PSDB) anda fazendo na câmara estadual. Seu último projeto proíbe que os cartões postais brasileiros tenham mulheres com os traseiros expostos, realmente uma brilhante política de combate a prostituição. Imaginando que cada projeto desse para ser aprovado passa por uma comissão, depois outra, vai pro plenário e tem que passar por dois turnos, nota-se quanto tempo é perdido nas discussões irrelevantes.

Fui para a Câmara dos Deputados de Brasília. Lá o dono do pedaço é um comunista que inexplicavelmente não é acusado de saber do mensalão. José Dirceu, o vilão brasileiro sabia. Aldo Rebelo (PcdoB) que era o articulador político do governo no Congresso não. Este adorador confesso de Floriano Peixoto tem propostas muito interessantes para mudar o Brasil. A instituição do Dia do Saci e o não uso de estrangeirismo no português. Prepare-se para chamar este acessório ao lado do teclado de rato. Fui fuçar a vida dos parlamentares.

O doutor Enéas, figura pouco presente no plenário, propôs um projeto de lei no mínimo inusitado. A ementa diz que o projeto "proíbe a produção e comercialização de alimentos em forma de cigarros ou de outros produtos derivados do tabaco". Esta medida certamente deve mudar o país, a partir dela devemos ter juros mais baixos, impostos mais justos, melhores hospitais, etc. Mas o médico deve saber o que está propondo.

Depois fui checar a vida de parlamentar do Babá (PSOL). Ele mostrou tanta virilidade quando Bush veio ao Brasil (a figura quis entrar na Granja do Torto pra bater no texano) que quis ver se na câmara ele é tão bom assim. Sua atuação na Câmara limita-se a propor a convocação de ministros para depor em comissões da casa. Mas o que chama mais a atenção deste fanfarrão é a sua assiduidade. Em plenário, Babá consegue passar de ano com 79,5% de idas. No entanto, se formos ver sua participação em comissões (onde realmente acontece o trabalho de legislar), o deputado fica reprovado (pena que ele não conheça meu professor Welman) com apenas 62,1% de presença. Muitos deles devem repetir esta prática. Uma façanha se analisarmos que a semana de um parlamentar começa terça e acaba quinta.

Ângela Guadagnin (PT) vem se tornando personagem folclórica com sua defesa veemente do deputado José Dirceu. É sua advogada na Comissão de Ética. Sua PL apresentada em 05/02 institui o Dia Nacional para o Controle da Depressão e Ansiedade. Deputados gostam de propor dias especiais que nada mudam pro povo. Se ao menos virasse feriado para não trabalharmos. César Maia fez Zumbi que pelo menos dá umas horinhas pro povo descansar.

São muitos os exemplos e espero estar sempre divulgando estas graças parlamentares por aqui. Isso não sai na imprensa e é muito mais divertido que ler o Noblat, por exemplo. Mostra como Sarney estava certo quando disse que vivemos uma crise de homens, não de instituições. Mostra o quão despreparada é a classe política que comanda o país em todos os poderes. Mostra que devemos saber dessas palhaçadas para votarmos bem em 2006.

O ex-deputado Humberto Reis do Piauí faleceu com 87 anos e uma de suas exigências era ser enterrado em pé, pois (olha isso), "nunca se curvou a ninguém e não queria se curvar depois de morto". Nós é que estamos nos curvando a esse tipo de gente que faz o que quer.

No terceiro ano aprendi uma frase de Lima Barreto. O Brasil não tem povo, tem público. É verdade.

Segunda-feira, Outubro 24


Thiago eu analisei seu currículo e gostei muito, mas como no jornal só há mulher e vc seria o primeiro homem, resolvi perguntar ao dono do jornal, ou seja, meu chefe pq ele não havia contratado homem. E tb falei de vc para ele e como eu havia gostado do seu currículo. Mas a resposta dele foi um tanto definitiva. Segundo o dono do jornal ele não trabalha com homem pq ele é estressado demais e que por isso já teve muitos problemas com homens pq tb tem o sangue mais quente. Nós mulheres já brigamos com ele imagina um homem? Te peço desculpas mesmo. Se dependesse de mim vc já estava no jornal. Mas o fato de ser editora chefe não me dá o poder de passar por cima do dono do jornal. Vc tem um ótimo currículo. Mas torço que vc consiga tudo q deseja na vida. E mais uma vez desculpa.

Palhaçada

O parágrafo transcrito acima é um email de resposta da redação de um pequeno jornal do Rio de Janeiro para um estudante do 6º período de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro que buscava um trabalho temporário. No caso, eu. Tive interesse em enviar meu currículo após ouvir de uma amiga que poderia fazer reportagens para o veículo, de forma não remunerada, mas que, ao menos, teria a oportunidade de praticar meu texto.

Poderia focar meu texto no preconceito do jornal ao fazer esta palhaçada. Se houvesse uma resposta com a justificativa de negar minha contratação por eu ser negro ou mulher, talvez o impacto do email fosse maior. Uma resposta como a que recebi merece risos da minha parte e não a indignação. Vieram muitos com a idéia que eu movesse uma ação contra este jornal que confesso nem saber o nome. Nem vendido é, apenas distribuído em pontos públicos do Rio. Adotei a tese do "deixa pra lá".

Mas depois passei a pensar em outros aspectos. Refleti sobre como profissionais deste tipo podem estar no mercado. O indivíduo quando escolhe ser jornalista no início sempre tem aquele sonho de mudar o mundo com um lápis e bloquinho. Depois descobre que a coisa não é tão simples assim. A ralação é grande e nem sempre você vai descobrir grandes furos em Brasília. Ás vezes vai ter que se contentar com um enterro de um traficante ou uma ida ao IML. É uma profissão muito bonita, pouco valorizada, como professor. E aqui não quero defender a classe. Longe disso.

Analisando o email, é nítida a falta de preparo e de seriedade do meio de comunicação citado. Com certeza, não possuem a utopia inicial de todo estudante e, muito menos, um pingo de profissionalismo. Este pequeno parágrafo talvez seja o retrato de boa parte (sem generalizar) da imprensa nacional.

O site Comunique-se, na semana passada, colocou no ar uma reportagem sobre a palestra de Ricardo Noblat (blogueiro mais famoso do momento) e Marcelo Beraba (ombudsman da Folha de São Paulo) em que avaliam o papel da imprensa na cobertura do governo Lula. Noblat elogiou exageradamente o trabalho feito, enquanto Beraba preferiu ser mais comedido ao dizer que tudo só veio a tona graças ao vazamento de um deputado da base do governo. Prefiro ser mais duro.

Os meios de comunicação nacionais vêm evoluindo assim como toda a sociedade brasileira. Um operário no poder, independente da avaliação de sua competência ou não para governar, é um avanço considerável. No entanto, vemos progressos na tecnologia, na apuração de matérias, na qualidade do jornalismo, mas não ocorre o mesmo na abertura do setor para outros concorrentes.

Já escrevi isso nesse blog. A imprensa brasileira é comandada durante muito tempo pelas mesmas famílias. São os mesmos que apoiaram a ditadura, apoiaram Collor e que são viúvas do tucanato. Não bateram muito em Lula por este manter a política econômica anterior e por saber que o PT no poder poderia abrir CPI de privatizações, compra de votos, etc. O acordo PT-PSDB na CPI do Banestado é nojento, o Brasil perdeu uma grande chance de pôr muita gente na cadeia.

A mídia hoje revolta porque não vai a fundo nas ligações PSDB/Marcos Valério, no que Daniel Dantas estaria por trás de toda esta crise, o que Palloci fez realmente em Ribeirão Preto durante sua gestão. E o principal. Não buscam o envolvimento de Lula e FHC no esquema da compra de votos em seus governos. Palloci, Lula, FHC são os republicanos corretos. José Dirceu, o vilão com a cabeça a prêmio.

O Globo, Folha, JB e Estadão agem para poupar estes símbolos de manutenção da política econômica sejam petistas ou tucanos. Por Veja e Isto é, a despeito de seu conflito particular, Lula estaria deposto com os fundamentos da economia mantidos. Primeira Leitura também adota esta posição apesar da crítica ao modelo Palloci. Mas sua oposição ao PT beira a doença fazendo com que a revista se esqueça de criticar outros partidos. Carta Capital e Caros Amigos não definem com firmeza o seu repúdio a figura do presidente, preferem bater no PSDB. Ou seja, todos incompletos. Todos de acordo com os seus interesses.

A questão não é exigir do jornalismo brasileiro uma imparcialidade. Não. Eles têm todo o direito de expressar sua opinião. Que me desculpe o Dines, mas a Veja tem todo o direito sim de colocar na capa a sua oposição ao desarmamento. O problema é quando você abre a revista e se depara com jornalismo ruim. Com jornalismo falso. Com jornalismo mau caráter. Por exemplo: a Veja tem, também, todo direito de denunciar a distribuição de Ipods pela gravadora de Maria Rita, mas não custa nada apurar o que fizeram os jornalistas que receberam o presente. Muitos devolveram. Não foi divulgado.

Não é perseguição com a revista dos Civita. Todos têm seus casos de jornalismo ruim. Isto é tem inquérito na Polícia Federal por ter feito, possivelmente, uma capa comprada alardeando o sucesso da Nova Schin. Fora a entrevista de Fernanda Karina que a revista de Domingo Alzugaray, estranhamente, segurou por quase um ano. O Globo tem FHC, candidatíssimo a Presidência da República em 2006, como um de seus colunistas. Não esqueço quando nas eleições municipais do ano passado, o sociólogo colocou no título da sua coluna: Vote Serra. Tudo bem um jornal ter posição, já escrevi acima. Mas não me venha ele depois escrever nos seus editoriais que é imparcial. Carta Capital e Caros Amigos defendem Hugo Chavez como modelo de governo a ser seguido. Vejo nas suas páginas só os dados de crescimento dos últimos dois anos. Não vejo os dados anteriores, de recessão que inflam a estatística do PIB atual. Não vejo referência ao aumento da pobreza do país. É como a Argentina de Kirchner.

Todas têm seus defeitos. E virtudes, claro. Evoluíram? Sim. Fazem uma boa cobertura da crise política? Diria que mostram muitos dados, denunciam muito, mas faltam informações. Quem são os corruptores, quais políticos e partidos fazem o tal de caixa dois e a cereja do bolo: até que ponto FHC e Lula sabiam das maracutaias de seus tesoureiros e articuladores?. Periga Brasília ficar ás moscas. Até tu, PSOL?

Resolvi então fazer um bem para a imprensa brasileira. Estou procurando me informar sobre como processar este jornal preconceituoso. As informações dizem que posso ganhar até quarenta salários mínimos na justiça comum. Destruir este pequeno jornal será o primeiro objetivo político de minha vida. Estado do RJ, o nome. Distribuído em locais públicos como barcas e metrô (nunca vi; enfim).

Melhor cortar na raiz este tipo de gente e, quem sabe, ganhar um trocado. Nada mal para quem fazia contas para viajar no carnaval. Sem mover um único dedo, me dou bem assim como muita gente nessa crise política. Teve assessora parlamentar posando nua, secretária virando candidata e bandido doleiro com status de herói.

Tenho a chance de desbancar um idiota como este chefe. Quero este oportunismo, aparecer mesmo. Viva o Brasil palhaço.

Quarta-feira, Outubro 19


O cenário é uma ilha isolada do mundo com um menino perdido. Estilo Lagoa Azul.
Ás suas mãos, uma garrafa, um pedaço de papel e um lápis (sei lá onde arranjou isso). Ele escreve um punhado de coisa, coloca em uma garrafa e joga ao mar esperando uma resposta. Ele sabe que é difícil, quase impossível, mas quando a resposta vem, fica muito feliz.
Se não fosse a situação, ele jamais iria colocar um papel dentro de uma garrafa com uma mensagem escrita. Este blog, o referendo e o menino perdido na ilha são circunstâncias que criam fatos antes nunca vividos. Sem eles, não aconteceriam garrafas com pedaços de papel nem debate algum sobre Sim e Não.
Democracia se constrói assim.
E lá vão mais garrafas. Despretensiosas, como sempre.


Livre Arbítrio x Controle Arbitrado

Temas polêmicos como a legalização do aborto, das drogas e da eutanásia sempre criam o debate a respeito da linha que separa o livre arbítrio do cidadão e o controle que uma lei pode ter sobre o mesmo. A esquerda e a direita sempre entram em contradição no momento em que discutem estes assuntos e dificilmente explicitam sua opinião claramente.

No Brasil, não conhecemos a posição do PT, PSDB, PFL e PMDB sobre estes assuntos. Mas conhecendo um pouco da história destes partidos, creio que dificilmente sejam a favor do Sim para estas legalizações. A Igreja Católica foi um dos pilares da criação do Partido dos Trabalhadores e jamais estaria na agenda de Lula este assunto. Seria sarna pra se coçar demais; já basta perder boa parte da militância com a política econômica atual. Basta ver que nunca estes assuntos são objetos de curiosidade de jornalistas e eleitores nas épocas de campanha. Nos EUA, o partido democrata não adota posições claras nesse sentido. John Kerry, nas últimas eleições, também permaneceu em cima do muro diante dos temas mostrando ambigüidade.

Muitos tendem a ser contraditórios. Por exemplo, aqueles que dizem que o Estado se mete demais e defendem o não-desarmamento mas pregam o não-aborto são contraditórios. É a direita religiosa! Aliás, quem defende o Não tem a obrigação de ser a favor da pena de morte, afinal a legítima defesa seria para matar o bandido a partir de uma reação. São assuntos complicados que exigem no mínimo coerência daquele que vai votar domingo.

Não sou a favor da legalização das drogas. É o tipo de sociedade que não quero para os meus filhos. O argumento de que vai acabar com o tráfico é estúpido, a não ser que a droga vire uma especiaria baratíssima no mercado legal e que o planeta inteiro resolva legalizar tudo. Caso contrário, viraremos o palco dos traficantes internacionais. Mas sou a favor da legalização da maconha, droga muito menos perversa do que uísque e absinto que bebo todo fim de semana. Este assunto é inútil; sou a favor sim, mas um referendo destes seria um desserviço à nação. O único ganho seria um recolhimento de impostos a mais, isso se o tráfico não continuar. E reitero: CD também é legalizado e temos pirataria.

Sobre a eutanásia temos algumas variantes. O caso Terry Schiavo é diferente do retratado no filme de Clint Eastwood e em Mar Adentro de Amenábar. No caso Terry, tenho uma posição nada humanista. Ou talvez seja, já que não se trata mais de um ser humano. Na minha concepção, ela era um vegetal. Perdeu toda a sua atividade cerebral, justamente aquilo que nos difere de coqueiros. Reinaldo Azevedo escreveu um texto na época defendendo o fato de Terry ser um vegetal e a vontade de sua família de, uso aqui suas palavras, "regar aquela plantinha até o fim de sua vida". Esta é uma decisão passional, compreensível até por parte dos pais, mas que não considera o sofrimento da paciente. A eutanásia de Terry é sim uma decisão técnica, como os conservadores gostam de defender a atuação do Banco Central por exemplo. Em Menina de Ouro e Mar Adentro a situação é mais complicada. Ocorre um suicídio na realidade e me faz lembrar um que ocorreu no meu prédio em 2003. A menina se matou por problemas psicológicos e se jogou do décimo andar. Até que ponto um problema psicológico é equivalente a um problema físico, como nos personagens do filme? O Estado não tem nada que legislar sobre isso, simplesmente porque não tem como evitar a vontade de um indivíduo de se matar.

Sobre o aborto temos uma questão filosófica em jogo. Seria a tal coisinha dentro de nós uma vida que estaria sendo assassinada? Para mim não. Sem dúvida, mais cruel do que "matar" essa "vida" seria coloca-la nesse mundo sem condições financeiras e carinho. E isso não estou nem falando dos casos de estupro. Steven Levitt escreve em seu fenômeno de vendas, o livro Freakanomics, que a legalização do aborto teria feito a violência diminuir em Nova Yorque. Nada de Rudolph Giulianni, ex-prefeito da cidade, e sua política de tolerância zero. É uma tese coerente. Filhos indesejados teriam a cabeça mais fraca e maior probabilidade de buscar saídas para a sua vida em meios ilegais.

O fato é que os partidos brasileiros, se mal têm programa de governo para economia e área social, não possuem, muito menos, nenhuma unidade sobre estas questões que entram mais no campo da moral e ética. As pessoas também não conseguem ter posições sobre tudo e fazer com que todas sejam coerentes. Em dias, meses, anos, as opiniões mudam e, graças a Deus, mudam. No meu caso, cotas e legalização da maconha foram temas que já optei pelo Não.

O debate do livre arbítrio contra o controle arbitrado passa pelo simples conceito de que a liberdade de uma pessoa vai até onde não se invada a de outra. É o meu modelo para ter opinião sobre estes assuntos. Um sujeito ter uma arma invade a minha liberdade já que um acidente pode acontecer e me prejudicar. Um sujeito usar drogas me afeta, pois financia o tráfico e contribui para a violência. No entanto, um aborto não afeta ninguém (a não ser a "coisinha") e uma eutanásia só a própria pessoa mesmo. Este debate é recheado de contradições, provavelmente as minhas serão encontradas. Não importa.

Todos já mudaram de opinião alguma vez na vida. Todos podem mudar de opinião. A minha está em aberto para tudo ainda.

Se FHC falou realmete "Esqueçam o que escrevi", qual o problema um moleque de 20 anos abrir suas garrafas e corrigir seus escritos equivocados antes de lança-los ao mar?

Quarta-feira, Outubro 12


Kafka era um cara problemático. Se bobear criava dilema até para vestir a camisa que ia usar na corretora em que trabalhava. Kafkiano é, sem dúvida, sinônimo de agonia.
Parece que tinha um pai mala também. Foi por causa dessa relação conflituosa que ele escreve "Carta ao Pai", um livro muito bonito como tudo que já li até agora de sua obra (tirando Metamorfose, que é livro de maluco para mim).
Em Carta ao Pai, Kafka utiliza um recurso muito bom para argumentar com o seu pai. Ao invés de apenas expor os seus motivos, o escritor simula uma carta de resposta do pai e, logo em seguida, contra-argumenta, fazendo uma conclusão brilhante.
Então, vamos lá, tentar dar uma de Kafka. Pretensioso eu.


O que eles dizem

O Brasil vive hoje uma campanha hipócrita a favor do desarmamento. Com tantos assuntos mais relevantes para serem colocados em pauta como legalização do aborto e da maconha, foi escolhido justamente um em que a escolha final não mudará em absolutamente nada os destinos do nosso país. Estamos desviando o foco das ações que realmente deveriam ser tomadas: uma reforma na polícia, na justiça e no sistema penitenciário nacional.

É ingenuidade achar que a vitória do ?sim? no referendo vai tirar as armas de circulação no Brasil. A proibição, na verdade, vai aumentar o comércio ilegal de armas. E, claro, os criminosos não vão obedecer a proibição do comércio de armas.

O detalhe é que são muitos os casos de países em que a proibição da venda de armas apenas aumentou a criminalidade como a Inglaterra. E possivelmente ocorrerá o mesmo no Brasil diante da cada vez maior audácia dos bandidos. A campanha do Sim, inclusive, vende a idéia que a redução no número de homicídios em 8% tem a ver já com a campanha que foi feita anteriormente de devolução de armas e que atingiu a meta de quase 500.000 devolvidas. Mas a campanha do Sim não fala sobre a queda nos homicídios com objetos cortantes que ocorreu no período. Por acaso houve uma campanha de recolhimento de facas?

Além disso, por que o Estado tem o direito de intervir na minha vida pessoal e na minha vontade de possuir uma arma? Os Estados totalitários tomaram esta medida em tempos anteriores sempre intervindo de forma autoritária no cotidiano do cidadão comum. É só olhar para o Planalto e ver quem está no poder hoje em dia.

O que eu digo

Sinceramente, qualquer referendo que fosse feito iria ter os mesmos argumentos de que a pergunta é desnecessária. Se fosse sobre o aborto, por exemplo: qual seria a diferença? Já que todo mundo sabe que os abortos acontecem diariamente no nosso país em várias clínicas. Ou sobre a legalização da maconha. Qual a diferença? Todo mundo sabe que o tráfico continuaria com outras drogas pesadas e talvez até com a própria maconha. CD é legalizado e nada impede que ele continue sendo pirateado. Maconha seria o mesmo. E provavelmente milhares de reais estariam sendo gastos em campanhas pelo sim ou não. Fazer política é caro. A democracia custa.

O Sim provavelmente não vai diminuir a violência, também sei disso. Mas dizer que vai aumentar é no mínimo um exercício de empirismo sem base alguma afinal, se há países em que a violência aumentou, há países em que a violência diminuiu. E aqui no Brasil mesmo, o fato é que nos estados onde houve maior recolhimento de armas, houve sim, maior redução de homicídios do que em outros em que a devolução foi menor. A única base anterior a ser analisada é esta e não a comparação com outros países possuindo outras condicionantes sociais, políticas, econômicas e culturais (e qualquer outro aspecto que os intelectuais gostam de citar e eu tenha esquecido. Talvez climáticas. Nem tanto, nem tanto).

Respeito quem adota a posição do não. Até porque existe um Brasil distante, aquele do interior, que não conhecemos e que imagino ser complicada a sobrevivência sem uma arma. Mas o Estatuto prevê que se a pessoa comprovar necessidade, pode sim portar uma arma.

Porém não respeito a posição do nulo. Me lembra o Chico Allencar votando nulo pela Reforma da Previdência. Que porra de posição política é essa? Covarde para mim. Enfim.

Mas bato em uma tecla mais filosófica e entro na questão dos direitos do cidadão e até onde um Estado Nacional pode interferir na vida de uma pessoa. Para começar certamente são muitos os liberais conservadores que estão defendendo o Não com o argumento do poder demasiado do Estado. Seu Olavo de Carvalho, seu Reinaldo Azevedo, etc. Pergunte a eles se são a favor do aborto, da eutanásia. Nesses casos não, para eles o Estado tem sim que se meter na vida das pessoas. É de uma contradição gritante esse tipo de direita.

Não existe isso de liberalismo extremado. Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal, deu uma entrevista certa vez dizendo que não existe a liberdade total de expressão. E não existe mesmo. A minha liberdade vai até aonde eu não atinjo a do outro. Isso é manual de educação para criancinhas do primário. Quero dizer com todas que, o Estado tem, sim, poder para legislar sobre certas coisas do dia-dia do cidadão. Ele tem, sim, poder para, dentro da minha casa, determinar certas normas.

Meu ponto é simples. No meu mundo mágico, com pessoas todas de branco cantando de mãos dadas "We are the Champions" em colinas gramadas, não deveriam existir armas. Já sei que vai entrar um cara vestido de preto na minha fantasia, no meio da minha multidão de branco dizendo que "isso não vai acontecer, seu idiota".

Já sei meu caro, respondo eu montado em um cavalo branco no alto da colina junto com meus seguidores utópicos. Mas pare e pense. Se nem as leis nesse país forem utópicas, o que mais será? Tem um livrinho aí que diz que toda propriedade tem que ter sua função social. Pergunta se o Brasil está cumprindo sua Constituição? Pergunta se todo mundo cumpre a lei de usar cinto de segurança? O brasileiro mija na rua, quer coisa mais escrota e fora da lei?

Tem muita gente combatendo essa proibição porque este país é de uma impunidade incrível e não porque são contra a proibição. Estão combatendo um referendo porque consideram que o Brasil tem tanto problema que este não mereceria tanta atenção e não porque são contra o Sim. Querem analisar o que está por trás da pergunta, o que se passa na cabeça dos bandidos após o referendo. Não se concentram apenas na pergunta.

Simples e de outra forma. Você acha que as pessoas têm direito de possuir armas? Pronto, acabou. Eu, sinceramente, do alto da colina gramada, vestido de branco, cantando Queen e brincando com crianças usando aquelas armas que saem uma bandeirinha escrito "No War", acho que não.

E olha que odeio aquelas passeatas que fazem o pessoal do Leblon ir às ruas pedir paz.

Quinta-feira, Outubro 6

Me aventurando no mundo das crônicas. Enfim. Não custa arriscar.
Ao lado, o que ainda me atrai na política. Graças. Meu ex-ídolo fanfarreando.

Um pouco de Futebol, Música... e Política!

Domingo é dia de não acordar. Durmo até tarde e mesmo despertando, prefiro a cama para ver futebol a tarde inteira. O pré-jogo, o jogo, o pós-jogo, se deixar, o VT de tudo isso.

Tentei mudar a rotina de lazer vagabunda. Fui a um show.

Maria Rita estava linda no Canecão. Voz exuberante, banda impecável e repertório na ponta da língua do público. Um espetáculo.

Futebol e Música. Paixões. Estas sim são eternas. As pessoas podem nos trair, são humanos, enfim. Pelas pessoas nos apaixonamos, desapaixonamos (existe isso?), brigamos e até apaixonamos de novo. Futebol e Música não. Existem épocas que nos distanciamos, mas nunca nos separamos deles em definitivo.

Não leio jornal faz muito tempo. Não estou dando o exemplo correto, eu sei. Mas cansei de ler sobre CPIs dos Bingos, Correios, Mensalão. Meu dever era saber de tudo o que se passa. Não consigo. Gosto apenas das graças de Brasília como ver o Lula de kimono chamando tatame de tapume. Ou ver Heloísa Helena nos seus ataques querendo brigar com todo mundo.

Meus domingos servem para me fazer fugir de toda essa realidade. Uma pedalada do Robinho ou a beleza da filha de Elis me fazem esquecer de dólares em cuecas ou carrinhos Land Rover de presente. Eis que a Veja (ô revistinha, como disse Bob Jeff), em jornalismo muito bem feito, diga-se de passagem, traz a política para dentro do futebol e da música. Não adianta, não consigo fugir.

Primeiro, um juiz idiota estraga o Campeonato Brasileiro vendendo resultados. Você descobre que, ás vezes, aquele título antigo, aquele gol nos acréscimos ou aquele pênalti que o fez vibrar e comemorar a alguns anos atrás, tudo pode ter sido armação. Outros árbitros podem ter feito coisa pior que esse sujeito.

Na semana seguinte outra bomba. Descubro que a gravadora de Maria Rita deu tocadores de mp3 para jornalistas falarem bem dela. Aí lembro da capa da Isto É Gente há duas semanas atrás falando muito bem da cantora. Ou de colunistas dizendo que "Segundo" é o melhor álbum do ano. São 250.000 cópias vendidas do seu novo CD depois de uma brutal campanha de marketing.

O fato é que nem uma simples partidinha de futebol tomando uma cervejinha (cuidado com a Nova Schin, o pessoal de lá já foi preso por sonegação!) ou uma ida ao Canecão para ver um show estão livres do que estou fugindo: a política. E você olha para quem deveria combater todos os desvios e vê uma Polícia Federal sendo roubada embaixo do seu próprio nariz. A mais nova é a acusação do Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos: existe uma quadrilha vendendo delações premiadas. Por isso vemos doleiros, cafetinas e lobistas metendo o pau no PT como nunca fizeram antes com outros que estavam no poder.

É melhor mudar a frase que comecei este texto. "Domingo é dia de não acordar" para "Nunca é dia de acordar". Senão não vou ver mais meu futebolzinho, meu Vasco(se eu fosse ético mesmo não torcia para um time de Eurico), minha Maria Rita. Senão vou acabar não votando em mais ninguém.

Durmamos.

Segunda-feira, Setembro 26

Azuis

Pode reparar ás vezes. É ridículo. Você está em frente ao monitor do computador minimizando e maximizando o arquivo aberto. Selecionando todos os elementos da área de trabalho fazendo retângulos aleatórios com o mouse. Ou simplesmente parado olhando para a tela. Isso só para esperar a parte debaixo do seu campo visual piscar com uma luz azul.

Não satisfeito você acha a solução para o tédio clicando em uma letra "e" azul. Pronto, dali pode acessar o mundo com cliques usando um navegador. Mas não. Opta por ver as mesmas caras velhas em um site também azul. De lá entra em comunidades e manda recados para os de sempre que fazem parte do seu círculo e que nada lhe acrescentam de novo.

O azul do MSN e do Orkut transformaram o brasileiro no povo que mais horas fica conectado a Internet de acordo com levantamento da empresa de pesquisa Ibope//NetRatings, que avaliou 11 países. Com um número de usuários residenciais praticamente estável em relação a maio, 11,5 milhões, os internautas brasileiros passaram em junho uma média de 16 horas e 54 minutos online. O tempo é mais que uma hora superior ao verificado na França, segunda na lista dos países consultados, com tempo de 15 horas e 40 minutos.

A privacidade é ignorada. No MSN a vida é exposta a partir de frases colocadas nos chamados "nicks". No Orkut cada um busca sua originalidade escrevendo seus perfis e entrando em comunidades exóticas. Sem hipocrisia, também faço isso.

De fato, a revolução tecnológica é incrível. O jovem tem hoje o fantástico poder de possuir uma ampla gama de opções para ter acesso à informação. O que vemos é uma grande oportunidade de ser ampliar cada vez mais os canais de comunicação já que no Brasil temos uma mídia concentrada em algumas famílias faz algum tempo (os Civita, Marinho, Mesquita comandam a décadas e já derrubaram e ergueram Lula. Mas isso é tema para outro texto, enfim). Os blogs talvez sejam uma revolução na informação sem que tenhamos notado.

No entanto, o jovem vem perdendo muito do seu tempo não em conseguir informações para a sua formação, mas nestas futilidades. Sem querer ser chato que não prega o lazer (é bom ás vezes), mas há sim um excesso (falo por experiência própria) de uso da rede para fins desnecessários. Email, scrap, testimonial, chat. Escrever abreviado (kd vc, fds, fdp). Estamos diante de uma ferramenta única para democratizar o conhecimento, mas que tem potencial de virar um verdadeiro ópio da juventude. Faz ela sair menos, faz ela viver menos. Emburrece ela sim.

Inspirei-me nesse texto ao ver uma reportagem sobre o Rio São Francisco. Nela vi o azul das águas, o azul do céu. E estou começando a ler um livro com uma capa azul: "A volta ao mundo em 80 dias" de Júlio Verne. Nome sugestivo.

Deveríamos preferir estas viagens. Estes azuis.

Domingo, Setembro 25

Para meu amigo Bernardo que respeito e admiro

O Exemplo Argentino

A esquerda mundial vibra com a renegociação da dívida externa feita pelo governo Kirchner. Aplaudem o crescimento do PIB na casa dos 7% em três anos seguidos e ironizam ao mostrar o Risco Argentina próximo do nosso, beirando os 400 pontos. Ainda citam os altos reajustes no salário mínimo e a política protecionista para a indústria local. O modelo heterodoxo encanta os chamados desenvolvimentistas, críticos do modelo conservador de Palloci. No entanto, é preciso que se coloque um freio nesta euforia mostrando o que está atrás dos números que convém ao discurso populista.

Nos anos 90, nossos vizinhos adotaram a paridade de sua moeda com o dólar e viram uma desvalorização no mercado de câmbio que fez a sua riqueza nacional ser reduzida em 20%. Seu parque industrial tornou-se sucateado e aumentou muito o número de pessoas abaixo da linha de pobreza, o desemprego e a inflação. A instabilidade econômica aliou-se á política com a derrubada de cinco presidentes em curto espaço de tempo. Assim, a Argentina chegou a uma dívida pública de 120% do PIB, na sua maioria com credores estrangeiros.

Nosso cenário pós-desvalorização do Real em 98 foi bem diferente apesar de também termos passado por um período de crescimento pífio. Os sábios da PUC que comandaram o Ministério da Fazenda em oito anos de tucanato fizeram a dívida pública dobrar para 60% do PIB e destruíram nossas transações correntes com uma política semelhante ao governo Menem. No entanto, o efeito aqui foi menor do que com os argentinos. Fizemos uma desvalorização da moeda mais suave, não houve recessão, muito menos disparada na inflação. Passamos a adotar uma política de superávits primários que garantiram a rolagem da dívida interna e a balança comercial deu uma virada a partir do ano 2000 transformando-nos em um país forte no exterior (o governo Lula tem mérito na sua política exportadora, mas a virada aconteceu antes).

Resumindo, os argentinos tinham que fazer essa renegociação. Não há inovação em Kirchner ao faze-la, era necessário tendo em vista que eles não tinham mais a mínima condição de rolar sua dívida. Malan também conduziu este processo dez anos antes aqui com a renegociação da dívida externa brasileira quando surgiu o famoso papel C-Bond. Para quem não sabe, o presidente argentino, mesmo renegociando seu passivo, faz um superávit primário de 5%- o do Brasil é de 4,25%- enxugando os investimentos públicos. Lá também está indo todo mês dinheiro do orçamento para pagar juros. Há também uma certa esperteza que está por trás disso. Primeiro que a Argentina renegociou sua dívida apenas com credores privados. Órgãos multilaterais de crédito como o Banco Mundial ou FMI continuarão cobrando o mesmo e deram apoio ao processo. Segundo que renegociar uma dívida externa parece muito mais fácil politicamente do que uma interna. Os fundos de pensão e investimento que a classe média usa depositam grande parte do seu capital nesses títulos da dívida pública. Uma renegociação desse porte dentro do país afetaria a renda de muitas pessoas. Seria engraçado ver um dia os pais daqueles estudantes radicais (aqueles bem irritantes e repetitivos) que pregam o calote tendo sua aposentadoria privada diminuída por conta dessa atitude.

Os números argentinos desde que Kirchner assumiu são bons mas a margem de comparação é muito baixa. Três anos de crescimento econômico robusto só fizeram o PIB argentino chegar aos níveis de 98, e mesmo assim, esta política inovadora nada tem a ver com a retomada já que ela veio antes da renegociação da dívida. O risco argentino está próximo do brasileiro graças à abundância de capitais livres no mundo todo que estão buscando os papéis dos países emergentes.

Nestor Kirchner está preocupado atualmente com as eleições legislativas que se aproximam. Triplicou o salário mínimo na sua gestão e acenou com diversas medidas protecionistas para as indústrias (pergunte a um empresário brasileiro como está difícil vender uma geladeira lá). Sobre o ajuste no salário mínimo, existem diversos estudos que afirmam que uma canetada presidencial aumentando o rendimento nem sempre chega ao bolso do mais pobre. O mercado informal hoje é tão grande que virou lenda dizer que uma boa política social está em aumentar o salário mínimo. E o protecionismo argentino tem dificultado seriamente uma integração maior do Mercosul, vide as relações Brasil-Argentina, um bocado hostil em certos aspectos (como esquecer Kirchner dormindo e depois saindo mais cedo em um fórum aqui em Brasília). Mesmo com estas medidas, a taxa de desemprego da Argentina está por volta de 10%, um pouco maior que a brasileira que já está na casa de um dígito.

Com juros baixos, Roberto Lavagna, ministro da Economia, vem promovendo uma política frouxa e o resultado está na inflação prevista para este ano: 11%. O dobro da brasileira. E não tem coisa que afete mais a renda do pobre que preços altos. Aprecio certas vezes Bancos Centrais conservadores, mas que, ao menos, mantém a inflação baixa. Kirchner combate a inflação com o tabelamento de preços e ameaçando empresas multinacionais como a Shell de aumentos abusivos. Nobre, porém não vem tendo efeito. No entanto, tem-se que admitir, os argentinos adotaram uma política interessante de controle de capitais (o dinheiro que entrar no mercado financeiro de lá tem que ficar no investido no país por, no mínimo, um ano) que a equipe econômica brasileira deveria adotar.

Na verdade quero dizer que a Casa Rosada teve êxito na sua renegociação, mas ela nada tem a ver com os resultados atuais que já começam a ser ameaçados pelo populismo de Kirchner. A Argentina tem problemas que não serão resolvidos com a posição adotada atualmente. Os últimos dados de investimento, que analisam se o crescimento será ou não sustentável, estão abaixo das expectativas e a inflação preocupa.

Os números parecem bons mas já dizia minha avó(dizia mesmo, este não é um recurso para minha retórica): Nos bons momentos é que temos que nos preocupar mais. Há uma ilusão da esquerda de que o exemplo argentino deve ser seguido, quando, na verdade, a nossa situação é de um estágio infinitamente superior (se for despejar os dados brasileiros, não tem nem graça). Eles fazem agora o que fizemos a dez anos com Malan e sua turma monetarista.

Nada melhor do que uma pitada de neoliberalismo (estou ainda buscando saber o que é isso, mas adoro usar) no atual modelo hermano. Até porque o bem deles faz o nosso bem.